Depois do enterro de Letícia estavamos todos entorpecidos. Os dias se seguiram no piloto-automático e a vida na casa seguiu sua rotina, mas havia um silêncio de dentro pra fora, de cada um de nós, dos animais, da casa, do mundo. Havia momentos em que olhava para meu filho e o via pequenino, em meu colo, com os cabelinhos quase dourados e encaracolados, quando eu achava que poderia sempre protegê-lo de tudo com meu amor. E agora, me sentia tão incapaz, vendo sua estupefação, se isolando no fundo do quintal, olhando pro céu, imóvel e chocado. Seu irmão ajudou a desmontar o bercinho, meus dois queridos, fazendo um barulho de metais e madeira que desmontavam a alma. O motorista de uma ONG de Câncer Infantil chegou, e lá foi meu filho se prontificando a ajudar, carregando jardim afora as partes do bercinho que deixava a casa e saía de nossas vidas; sabe lá Deus o que lhe passava pela cabeça naquele instante. E senti a dor de não poder protegê-lo.
Gui ficara com o quarto só pra ele, Lelê foi pro céu.
Hora de nos prepararmos para a Missa de 7º Dia. A tia coordenou, com uma amiga que faz decorações pra festas, um dia inteiro de mutirão para fazermos as lembrancinhas da Missa. Foi tão bonito, nunca vou me esquecer. A outra Vovó levou um almoço e a anfitriã também serviu muita coisa. Muitas amigas e primas iam e vinham se revezando na tarefa dos paninhos, fitinhas, fotinhas, colas e papelões e pombinhas de madeira do interior de Minas, nesse dia de sol ameno de abril. Era como se estivéssemos preparando uma festa pra Letícia. As lembrancinhas prontas eram colocadas em cestas de artesanato local. Parecia coisa de livro, umas 15 mulheres sentadas ao redor de uma mesa, conversando, rindo, chorando e se dando de uma forma que jamais esquecerei. Aquele amor, união e dedicação, encheram meu coração, me confortaram e me ajudaram a ser uma pessoa melhor, em alguma coisa, não sei bem o quê, mas me ajudaram.

A força de minha nora foi imensa nesses dias que se seguiram ao enterro. Meu respeito por ela é e sempre será muito grande.
Encomendamos 200 balões brancos. No dia da Missa, minha nora e eu, fomos com o pequeno Gui ao Ceasa comprar muitos vasos de flores. Nós mesmas decoramos a Capela dos Jesuítas, com grupos de balões amarrados às cadeiras por laços de fitas e flores também brancas. A igreja estava florida de flores e crianças. Muitas crianças. O Gui estava lá também, e um dia irá se lembrar, pois vamos conversar sobre isso.
Ao final da Missa, todos, inclusive o Padre que havia celebrado a missa e também batizado Letícia, fomos ao jardim da Igreja soltar os balões brancos para o céu, para além de onde os passarinhos voam, para Letícia. As crianças gostaram da ideia, e até os adultos mais resistentes também aderiram ao que consideramos uma cerimônia e uma homenagem à breve presença de Letícia entre nós. E os balões subiram aos poucos, aos montes, outros mais isolados, acima das árvores, do sino da igreja, além de onde o entendimento subjetivo de cada qual presente pudesse alcançar, levados pelo vento, confirmando assim a ida de Letícia.Vovó Thaïs